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From There To Here

Shipwreck

"E porque já quando esta obra se acabou a çarração da noite era muito grande, não foi possível recolher-se à nau a gente que estava nele, pelo que foi forçado ficarem aquela noite lá todos, que foram quinze, de que os cinco eram portugueses, e os outros escravos e marinheiros. Em todos estes trabalhos e infortúnios nos acompanhou sempre este bem-aventurado padre, assim de noite como de dia, por uma parte trabalhando por sua pessoa como cada um dos outros, e por outra animando e consolando a todos de maneira que depois de Deus ele só era o capitão que nos esforçava e nos dava alento para de todo nos não rendermos ao trabalho, e nos entregarmos de todo à ventura, como alguns quiseram fazer algumas vezes, se ele não fora. Sendo já quase meia noite os quinze que iam no batel deram uma grande grita de Senhor Deus misericórdia, e acudindo toda a gente da nau a saber o que aquilo era, viram ao horizonte do mar o batel ir atravessado, porque lhe quebraram  os bragueiros ambos com que estava amarrado. O capitão, com a dor daquele desastre, sem consideração alguma, nem atentar ao que fazia, mandou arribar a nau pela esteira do batel, parecendo-lhe que o poderia salvar, mas como ela era má de governo, e acudia devagar ao leme, por causa da pouca vela de que era ajudada, ficou atravessada entre duas vagas, onde a encapelou uma grande serra por cima da popa, e lhe lançou no convés tamanho peso de água, que de todo a teve soçobrada, a que a gente com uma grande grita que rompia o ar chamou com muita insistência por nossa Senhora que lhe valesse."

Peregrinação - Fernão Mendes Pinto